Até que a vergonha nos separe !

 


Eu conheço meu marido há muitos anos e nós namoramos bastante tempo antes de casar. Na verdade, nosso relacionamento se divide em três fases:

A fase um foi daqueles namoros de adolescente iniciados nas férias de verão. Meu primeiro namoro! Essa primeira fase durou apenas um mês porque ele morava na zona sul e eu na Norte e ele era muito playboyzinho para manter um relacionamento andando de ônibus. Na volta do veraneio, ele me ignorou e eu, mesmo triste segui minha vida.

A fase dois eu já tinha 18 anos e nosso reencontro durou três
anos, mas ainda assim terminamos.

Da terceira vez que cruzamos os nossos caminhos não nos desgrudamos mais e de lá para cá já temos uma década e alguns anos juntos.

A razão pela qual eu estou dando essa introdução é para deixar claro para o distinto leitor de que ele já sabia quem eu era e não casou enganado!

Explico: Meu marido é um cara calmo, reservado, até um pouco introvertido, tem poucos, mas bons amigos e cada ano que passa fica mais sério. Já eu, bem, como posso me descrever, eu sou uma pessoa que ama gente, barulho, conversas, risadas e interações sociais. Eu sou aquela pessoa do banco que começa um diálogo reclamando que só tem um caixa e que termino sabendo a vida de pelo menos 3 pessoas, dando conselhos matrimoniais e colocando o nome em roda de oração ou que na corrida do uber fica sabendo da vida do motorista e de toda a sua família. Prazer, essa sou eu!

Eu sou a pessoa que quando namorava com ele, fui visitá-lo uma vez em São Paulo pois ele foi fazer um curso . Quando ele foi para o trabalho eu decidi ir , mesmo sem conhecer nada da cidade , na famosa 25 de março fazer compras. Detalhe: fui de ônibus e não levei o celular com medo de ser roubada . Eu tinha certeza absoluta de que tudo iria sair como planejado e que quando ele voltasse do trabalho eu já estaria linda esperando ele para um jantar romântico.

Não saiu.

Errei o ônibus na volta, fui parar em um bairro super longe. Numa cidade do tamanho de São Paulo, esse meu errinho inocente atrapalhou meu tão bem bolado plano, me fazendo atrasar horas e horas . Sem ter como avisar a ele, já que eu bem esperta havia deixado o celular no hotel ,comecei a conversar com as pessoas perto de mim e foi aí que eu conheci Dona Lourdes, senhora muito simpática, original do Janga, mas que residia na terra da garoa há anos. Diante da simpatia daquela senhora e munida da minha cara de pau característica, pedi o celular dela emprestado e liguei a cobrar para meu marido .Resolvi. Desci do ônibus com o número do telefone de Dona Lourdes, um santinho de São Judas Tadeu, um enfeite de celular que era moda na época e a promessa de ir comer um bolo de fubá em Paraisópolis na casa dela. No hotel o jantar romântico foi substituído por um sermão sobre os perigos de conversar com pessoas estranhas na rua.

Hoje em dia, quando as coisas só acontecem comigo ele nem liga mais. O problema é que, sempre sem querer, eu acabo o envolvendo nas minhas peripécias.

Da última vez que fomos aos Estados Unidos, chegamos atrasados no embarque e ao entrar o portão era do outro lado do aeroporto (lei de Murpphy). Como a mãe dele estava junto, combinamos que eu correria na frente e seguraria o embarque até eles chegarem. Saio eu toda destrambelhada correndo pelos corredores do JFK, com cara de desespero até chegar no portão de destino. Lá eu conto esbaforida a moça da companhia aérea nossa saga e que o meu digníssimo está vindo o mais rápido que pode. Claro que eu conto isso no mais alto volume, com a minha performance teatral novela mexicana e apelando seriamente para a sensibilização daquela pessoa que iria decidir entre nosso embarque ou não. Não satisfeita eu fico dizendo de 1 em 1 minuto: " eles estão chegando, eles estão chegando, eles estão chegando! " em Inglês e as pessoas ao meu redor começam num coro " They are coming !" . Eis que quando o pobre dobra a esquina e nos avista a multidão explode em palmas e gritos e ele sem entender nada, morto de vergonha, arrastando a mãe esbaforida. Eu , por minha vez , estou emocionadíssima com aquela mobilização popular dos meus best friends instantâneos começo a acenar tal qual uma Miss universo recém coroada dando vários THANK YOU para todos em volta. Meu sonho de princesa no entanto é interrompido abruptamente quando percebo que a funcionária da companhia aérea , certamente cansada do espetáculo já tinha encerrado o voo e trancado a porta do embarque. Meu flash mob não serviu de nada e serviu : levei um esporro pela algazarra , pela vergonha e pelas próximas 5 horas de espera em silêncio sepulcral pelo próximo voo.

Uma outra vez encontramos o vocalista do Iron Maiden, banda preferida dele, buscando as malas num aeroporto para um show no Brasil. Eu disse a ele que era a chance que ele teria de tirar uma foto com o ídolo e ele muitíssimo envergonhado não queria. Eu me muni de todas as falas aprendidas com os life coaches do Instagram sobre sonhos e oportunidades, tentar e ser bem sucedido, acreditar e etc . Dei tanta força a ele que o pobre respirou, encheu o peito de coragem e caminhou até o cantor. No melhor inglês que tinha, ele olhou pra o cantor perguntando de forma bem segura se poderia tirar uma foto com ele. Eu morrendo de orgulho, olhando ao longe o amor da minha vida realizar um sonho, fiquei arrasada quando o pedante ídolo deu um sonoro NOOOOOOOOO de resposta, virou de costas e saiu. 

Sobrou para quem? Euzinha né??? Poxa! Como eu ia adivinhar que o metido do cantor internacional ia se recusar? Fui responsabilizada pela vergonha que o outro passou e ainda levei mais uma bronca.

Assim seguimos casados. Ele cada dia mais sério e eu cada dia mais louca. Ele cada dia mais reservado e eu conversando com todos os estranhos que cruzam meu caminho. Acho difícil eu mudar nessas alturas da vida e me tornar uma pessoa mais fechada assim como já desisti de pedir pra ele deixar de achar ruim tirar 472 fotos sorrindo em todos os lugares onde vamos. De um modo perfeitamente estranho nos completamos e concordamos no que é essencial para ambos : amor e respeito.

Como eu disse, ele não casou enganado e caso ele não tenha escutado, eu estrategicamente pedi para o Frei que nos casou incluir nos votos feitos naquela cerimônia linda, numa manhã de sábado em Aldeia ,que nossa união era pra ser na alegria e na tristeza, na saúde e na doença e passando vergonha ou não.

Agora não adianta reclamar né?

CATEGORIA DO ESPECTRO : MARITUS ENVERGONAGTUS


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